Menu
Ler agora
Saúde

A luta de uma comunidade contra o mosquito da dengue

Em Rodeio Bonito, mais de 17% da população já contraiu a doença. Município tem o maior número de casos da região

A luta de uma comunidade contra o mosquito da dengue

Em todos os estabelecimentos de Rodeio Bonito tornou-se comum encontrar um recipiente com repelente à disposição de quem chega nos locais. Isso demonstra o medo de uma população que tem lutado, diariamente, contra o mosquito Aedes aegypti, o transmissor da dengue, zika vírus e chikungunya.

De acordo com o último Censo do IBGE, o município possui 5.868 habitantes, destes, mil já contraíram dengue, ou seja, mais de 17% da população local. Na área de abrangência da 2ª Coordenadoria Regional de Saúde (CRS), Rodeio Bonito é o município com maior número de casos, já que toda a região contabiliza cerca de 2,5 mil casos, sendo quase a metade registrados na cidade. 

No entanto, após diversas ações, a situação tem se estabilizado. Conforme o último boletim divulgado pela administração municipal, há 124 casos ativos da doença. 

“Não estávamos conseguindo remédio”

Para o diretor-administrativo da Associação Hospitalar São José, Ivan Deliberalli, a maior procura por atendimentos foi registrada nos últimos 60 dias. “Para se ter uma ideia, em 12 horas costumávamos atender entre 30 e 35 pessoas. Neste período atendemos mais de 100 pacientes, e cerca de 80% eram pela dengue. Isso resultou em um fluxo e uma demanda muito grande. É quase impossível atender tantas pessoas em um período tão curto, e os pacientes vêm com dor, febre alta, tontura, náuseas. Não podem esperar muito tempo pelo atendimento”, conta Deliberalli.

Além disso, outra preocupação da diretoria do hospital era a falta de medicação e o preço elevado durante este período. “Não chegou a faltar, mas não estávamos conseguindo remédio para baixar a febre e soro. Quando conseguíamos era muito mais caro”, explica. 

O fluxo na casa de saúde inicia após as 17 horas, pois é o período em que a Unidade Básica de Saúde (UBS) está fechada, assim como nos fins de semana. Além de atender a população de Rodeio Bonito, o hospital também recebe pacientes de Cristal do Sul, Pinhal e Novo Tiradentes. “Nossa demanda de atendimentos já era grande e após tantos casos de dengue aumentou ainda mais. Em um fim de semana realizamos mais de 280 atendimentos, a maioria em pessoas de meia idade e idosos. Agora a situação tem se estabilizado, mas com toda essa chuva precisamos ficar atentos. Pedimos que cada um cuide seu terreno, sua casa, pois é impossível o poder público fazer a limpeza em todas as residências. A responsabilidade é nossa e nós temos que cuidar dos nossos terrenos”, finaliza. 

Diretor-administrativo do hospital, Ivan Deliberalli

Ações de combate se intensificaram ainda em janeiro

Assim que os primeiros casos foram confirmados, em janeiro, as equipes da prefeitura iniciaram diversas ações, como visitas e orientações nas casas. No entanto, conforme explica a agente de combate a endemias, Leticia Fátima Taschetto, o índice de infestação do mosquito não diminuía. “Com a estiagem, o pessoal guardou a água e, como não chovia, foram cuidando para não gastar. Quando começamos a abrir esses reservatórios, cerca de 90% deles estavam com larva do mosquito, foi então que começamos a ajudar a lavar esses reservatórios e a população tem colaborado, mantendo-os limpos e bem tampados. Após esse trabalho, os casos começaram a diminuir”, explica Letícia. 

O vírus que circula por Rodeio Bonito e região é do tipo 1, então, após se infectar por ele cria-se uma imunidade permanente, ou seja, essa pessoa não pode mais desenvolver a dengue 1, mas pode contrair outro sorotipo, já que existem quatro. Segundo Letícia, a cada vez que você é infectado pelo vírus, os sintomas são mais intensos e é maior o risco de ter uma dengue hemorrágica. 

A agente de combate a endemias também reforçou que o período mais crítico ocorreu nos últimos 60 dias. “No fim de fevereiro começou aumentar bastante o número de casos e tivemos que fazer mutirões. A situação começou a fugir do controle e a nossa equipe não conseguia mais dar conta, por isso, decretamos estado de emergência e foram contratadas mais pessoas para auxiliar”, destaca.

A administração municipal também passou a realizar fumacê em todas as ruas da cidade, conforme os casos eram confirmados e o número de infestação aumentava. Uma empresa especializada foi contratada para aplicar o inseticida dentro das residências. 

Além de pneus e reservatórios de água, até mesmo em sacos de salgadinho, plantas e troncos de árvore é possível encontrar as larvas do mosquito. “O fumacê é realizado diariamente, ao amanhecer e entardecer, pois, são os períodos em que o mosquito está mais ativo. O nosso trabalho também é orientar a população, para que contribua cuidando do seu terreno. É uma ação em equipe e, se a comunidade não auxiliar, não vamos conseguir bons resultados”, ressalta Letícia.

A agente de endemias, Leticia Fátima Taschetto, é quem está à frente dos trabalhos

Quem teve dengue não esquece os sintomas

Anair Paludo Orlandi, 74 anos, e Ademiro Orlandi, 76, residem em Rodeio Bonito há quase 50 anos. Neste ano, o casal contraiu a doença, quase no mesmo período e afirma que os sintomas da dengue são muito piores que os de Covid-19. “Eu perdi o apetite, tive vômito, diarreia e muita dor no corpo. Estou fazendo quimioterapia e fiquei muito debilitada, foram 20 dias de dores fortes. Não conseguia fazer nada dentro de casa e contava com ajuda da filha, dos vizinhos e profissionais de saúde”, conta Anair. 

Para Ademiro, os sintomas não foram tão intensos, mas permaneceram por cerca de 10 dias. “Tinha muita dor no corpo e vermelhidão na pele. Pedimos para o pessoal cuidar muito, pois os profissionais têm trabalhado muito para combater a dengue”, destaca. 

Anair Paludo Orlandi, 74 anos, e Ademiro Orlandi, 76 anos

Fonte: Jornal O Alto Uruguai