Desde fevereiro deste ano, o Conselho Permanente de Agrometeorologia aplicada do Rio Grande do Sul registra chuvas abaixo do esperado em praticamente todo o Estado, situação que se intensificou durante o período de inverno. Essa condição sempre preocupa o setor de produção agrícola, uma vez que o recurso hídrico é fundamental para o manejo das culturas e o abastecimento de reservatórios, lençóis freáticos e demais estoques de águas. Um dos principais fatores climáticos que corroboram para essa condição é o fenômeno Lã Ninã.
O engenheiro-agrônomo e gerente da Emater/Ascar-RS do Escritório Regional de Frederico Westphalen, Luciano Schwerz, explica que o fenômeno acaba gerando mudanças nos padrões de precipitações em função do aumento da força dos ventos, o que resulta em chuvas má distribuídas e com menos tempo de duração. Contudo, mesmo diante desse cenário, os impactos causados pela insuficiência das chuvas não atingem, diretamente, as culturas atuais produzidas no campo, as chamadas culturas de inverno.
De acordo com o produtor rural Elido Balestrin, de Taquaruçu do Sul, para o Rio Grande do Sul, havia a previsão de chuva abaixo da média, mas com precipitação mais frequentes, especialmente no fim da estação. “Mesmo com esse volume abaixo da média, culturas de inverno estão sendo beneficiadas com o clima mais seco. A cultura de trigo precisa receber muita luz solar para crescer e se desenvolve com umidade moderada. Então, neste momento, esse volume de chuva tem sido satisfatório para essa cultura”, explica.
Sinal de alerta para abastecimento hídrico
Com as ocorrências meteorológicas abaixo do previsto, Schwerz explica que a região não vive uma estiagem e que a preocupação atual no meio rural não se restringe às plantações, mas sim, à manutenção dos reservatórios de água, dos lençóis freáticos e demais depósitos de água.
– Se formos visitar as propriedades no interior, veremos as lavouras em boas condições, porém, será possível registrar também córregos em níveis baixos, nascentes com baixa vazão e reservatórios em níveis abaixo do ideal – explica Schwerz. O engenheiro diz, ainda, que para existir uma alteração nos estoques de água é necessário o chamado excedente hídrico, ou seja, uma grande quantidade de água que possa permear o solo em quantidade suficiente para alterar os níveis dos reservatórios. Nesse sentido, o engenheiro-agrônomo destaca que, a curto prazo, a ausência das chuvas não influência o estado atual dos cultivos já plantados, mas preocupa “se caso nos próximos meses, em que novas culturas serão produzidas, ocorra uma estiagem”.
Chuvas moderadas favorecem culturas de inverno e aplicação de insumos
Ainda que má distribuídas no Estado, a quantidade de chuva é suficiente para a manutenção das gramíneas, oleaginosas e leguminosas, que são produzidas durante o inverno, pois demandam um menor volume de água. Os principais cultivos são o trigo, o sorgo, a aveia, o milho e as chamadas culturas de cobertura, que são utilizadas como adubo verde ou produção de biomassa.
Ainda, conforme relata Schwerz, as chuvas recentes também propiciam a aplicação de alguns insumos agrícolas, como fertilizantes nitrogenados e herbicidas, que precisam de umidade, pois atuam diretamente no solo. No âmbito da pecuária, os períodos de estiagem que duraram entre abril e início de junho, correlacionados com o solstício de inverno e com a chegada das geadas, dificultaram a implantação de pastagens, conforme explica Luciano, contudo, com o volume recente de chuva e a presença do sol, a situação nas lavouras de pasto também foi amenizada.
Previsões futuras apontam ocorrências meteorológicas
O cenário para os próximos dias é de transição das culturas, conforme informa o gerente da Emater. Alguns produtores já estão realizando o plantio do milho safra e, nesse sentido, as demandas hídricas iniciais desse cultivo não são tão altas, segundo Schwerz.
Contudo, uma projeção realizada pelo profissional indica que mais chuvas serão registradas. “Temos prevista uma entrada (de chuvas) nesta segunda-feira e terça-feira, que varia ente 50 a 80 milímetros, o que também pode se repetir na outra semana”, aponta Schwerz.
Com essa possibilidade, de acordo com Schwerz, pode-se ter de duas a três semanas com chuvas regulares. Porém, o engenheiro-agrônomo sinaliza que os próximos meses serão de alerta, visto que já no mês de outubro (período de redução de chuvas previsto), a demanda hídrica do milho aumenta e é nesse momento que a ausência das chuvas excedentes, que deveriam abastecer os reservatórios de água, pode ser sentida caso um ciclo de estiagem tenha início.
Entenda o fenômeno Lã Ninã
O Lã Niña é um efeito que ocorre quando as águas superficiais da região da linha equatorial do Oceano Pacífico sofrem um esfriamento anormal. Essa alteração afeta as chuvas e as temperaturas ao redor do mundo. A principal causa do La Niña é a intensificação dos ventos alísios, que sopram de Leste a Oeste na região da linha equatorial, gerando um aumento dos movimentos de ressurgência, quando as águas frias do fundo do oceano sobem para a superfície. As águas quentes ficam então concentradas em um pequeno espaço da região mais Oeste do Oceano Pacífico, desregulando as precipitações em vários pontos do planeta.
Fonte: Canal Agro Estadão
Previsão de chuva para o trimestre
Setembro: valores próximos da normalidade na maior parte do Estado, com totais acima da média no setor noroeste.
Outubro: seca na Região Central, Leste e Nordeste, e ligeiramente abaixo da média nas demais regiões.
Novembro: seca na faixa Norte e ligeiramente abaixo da média nas demais regiões.
Fonte: Secretaria Estadual da Agricultura
Fonte: Jornal O Alto Uruguai
