“Ocorrência nenhuma me dá frio no estômago, mas para mim, particularmente, tentativa de suicídio é a mais difícil de atender”, descreve a sargento Adriane Weber Fioravanti, subcomandante do Pelotão do Corpo de Bombeiros de Frederico Westphalen. Apesar do receio, os atendimentos desse tipo são mais comuns do que ela gostaria.
Recentemente, a corporação recebeu um chamado indicando uma tentativa de suicídio em Frederico Westphalen. Uma jovem de 16 anos era contida pelo namorado para não se jogar do terceiro andar do prédio em que mora após uma discussão do casal. Ao chegar no local, Adriane ouve os gritos e anuncia para os companheiros de atendimento: “vamos chegar agarrando, não vai ter como ter negociação”.
– Um segundo que eu virei as costas ela tentou se jogar. Eu gritei “pega”, e meu colega correu e agarrou-a pela cintura. Ela já estava com as duas mãos e os pés na janela, iria pular realmente. O casal teve uma briga, ela se alterou e o rapaz estava segurando-a porque estava tentando pular – revela a sargento.
Segundo Adriane, recentemente, houve um aumento significativo de casos como esse. Além dos edifícios, locais como o viaduto de Frederico Westphalen são os principais em que os bombeiros são acionados para atuar. “É bem complicado. A gente para e pensa o que leva a pessoa a chegar nesse ponto, procura a forma mais complicada e dolorosa de acabar com os problemas”, ressalta.
O atendimento, muitas vezes, envolve uma espécie de negociação, na qual o que está em jogo é a vida da vítima. “A nossa cabeça precisa estar tranquila. Se você não tiver um equilíbrio mental, se não estiver 100% focado naquela ocorrência, qualquer erro pode fazer com que a vítima realmente se suicide. E para nós isso é muito complicado”, confessa a bombeiro.
A sargento alerta que as vítimas costumam dar sinais antes de tomar a mais drásticas das medidas. “Antigamente se tinha um mito de que quem quer se matar não avisa. Isso não é verdade. A pessoa, quando nessa situação, fala frequentemente em morte, em falta de esperança, de sentido na vida. Ela está tentando chamar a atenção para algum problema grande que está passando”, cita. Em 2021, até o momento, já são oito atendimentos contabilizados pelos Bombeiros, número 37,5% maior do que em 2020, quando foram cinco casos em todo o ano.
Isolamento social pode ser um dos motivos do aumento de casos
A pandemia do coronavírus impôs uma série de restrições no convívio social que podem ter agravado a saúde mental de parte da população, além de interromper tratamentos de pacientes. O psiquiatra Augusto Ferreira Göller, formado pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre, sintetiza como pode ser o impacto causado pela pandemia.
– Podemos pensar o ser humano como um "ser social". Notou-se, portanto, que a necessidade do isolamento físico, tão necessário para o controle da pandemia, levou ao surgimento de sintomas novos em quem não possuía diagnóstico, bem como piora de sintomas pré-existentes – ilustra Göller.
Já interrupção de tratamentos e de hábitos saudáveis pode ter consequências sérias. “A maioria dos transtornos psiquiátricos exige tratamento continuado. Portanto, interromper uso de medicação, interromper a regularidade nas consultas médicas, deixar de praticar exercícios regularmente, alterações em rotina, sono, dieta, indubitavelmente, têm consequências sérias e preocupantes, em se tratando de saúde mental”, alerta.
Como forma de ajudar uma pessoa próxima em situações mais sérias, o psiquiatra recomenda que amigos e familiares se coloquem à disposição.
– Costumo dizer que a melhor estratégia é estar disponível para uma conversa, para ouvir, para se pôr à disposição. Quando necessário, motivar tal pessoa próxima a procurar ajuda profissional é fundamental. Acredito que não há grandes técnicas complexas para tal, ou seja, não há necessidade de se conhecer grandes protocolos científicos quando se quer ajudar um vizinho, um parente ou amigo. Gosto da frase que diz: "na dúvida, se não souber como agir, haja como um ser humano".
No dia a dia, alguns cuidados podem ser valiosos, aliados para cuidar da saúde mental. “Alguns hábitos são positivos em diversas situações. Prática de exercício físico regular, prática de meditação, cuidado com o apetite, alterações comportamentais para sono de melhor qualidade são alguns exemplos. Quando se julgar necessário, procurar um profissional na área é uma bela atitude de autocuidado”, elucida.
Ajuda gratuita pode ser encontrada
Sempre que houver necessidade, uma ajuda profissional deve ser consultada. É possível encontrar atendimento e orientações de forma gratuita por meio da rede de atenção básica dos municípios, como postos de saúde e unidades de saúde da família. Confira outras alternativas de atendimentos gratuitos e a distância.
- Centro de Valorização a Vida (CVV): realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, por meio do número 188, e-mail e chat 24 horas, todos os dias, pelo site www.cvv.org.br.
- ReviraSaúde: disponibiliza atendimento remoto e gratuito realizado por profissionais de saúde voluntários. Além de atendimentos em saúde mental para a população em geral, o projeto oferece práticas integrativas e complementares, como meditação, reiki, terapia floral e outras, para profissionais de saúde.
- TelePSI: projeto de pesquisa do Ministério da Saúde com o Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), que oferece psicoterapia on-line gratuita, com o objetivo de dar assistência a profissionais da saúde do SUS com sofrimento emocional durante a pandemia.
Fonte: Jornal O Alto Uruguai
