Se o aumento recente no preço dos cortes de gado, porco e frango já assusta, é bom se preparar para o que pode vir por aí. Em uma audiência realizada pela Comissão de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural (Capadr), no dia 21 de maio, representantes da indústria de produção de proteína animal não esconderam o cenário difícil no qual se encontra o setor atualmente para o mercado nacional. Pressionados pelo aumento da ração animal, eles debateram soluções para evitar que as prateleiras não fiquem desabastecidas pelos itens que compõem parte essencial na alimentação humana.
Preço dos grãos é o principal “vilão”
A preocupação tratada no encontro diz respeito ao encarecimento da produção das rações animais. O alimento de galinhas, porcos e bois teve o preço elevado consideravelmente nos últimos dois anos, especialmente em razão do valor dos grãos usados para a fabricação das rações. De janeiro de 2019 até maio de 2021, o preço do milho teve um aumento de 180% e o da soja 140%, o que se deve por uma soma de fatores, como as estiagens que prejudicaram as safras de milho nos dois últimos anos, segundo o engenheiro-agrônomo Cleber Cerutti.
Além da seca, a China passou a importar mais soja do Brasil, a fim de aumentar a produção de ração suína. As exportações dos grãos também cresceram para outros destinos, conforme Cerutti, e por cima disso tudo, a abertura de usinas de etanol no Centro-Oeste demandou uma grande quantidade de milho para a produção do combustível. Isso fez a oferta da matéria-prima das rações diminuir no mercado nacional e, por consequência, tornou os grãos mais caros.
Outros custos da indústria também “explodiram” no período, principalmente, em função da pandemia: polietileno (+91%), diesel (+30%), papelão (+68%) e embalagens rígidas (+85%).
Pagar mais ou comer menos
Como cerca de 70% do total gasto na produção de carne se deve ao valor gasto com ração, o aumento será repassado para o consumidor. Nos últimos 12 meses, as carnes tiveram aumento de 35,7%, escalada que não tem previsão de retorno. Como explicou o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, durante a audiência, as consequências atingem as pessoas mais vulneráveis economicamente.
– O prato dos brasileiros pode ficar mais vazio se o governo não agir rápido. Não é que vai faltar produto, mas vai diminuir a oferta. Na mesa das pessoas pobres é que vamos ver a influência. Nós seremos o veículo de um aumento muito forte na mesa do consumidor, mas não somos a causa. Não queremos aumentar preço para ganhar mais dinheiro e sim para manter o emprego e a renda de milhares de famílias no campo – comentou o diretor.
Redução de impostos pode ser a solução
Os produtores de carnes, suínos, aves e ovos encaminharam sugestões para conter o aumento nos valores. As proposições alinhadas com a comissão foram o pleito da redução de impostos, o que demandará uma mobilização para conseguir isso junto com governo federal, já que o Estado previamente havia sinalizado positivamente para o corte no Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS).
As isenções solicitadas dizem respeito à importação e comercialização de grãos para ração animal, como a suspensão temporária da cobrança de PIS/Cofins para importação de milho e soja de países de fora do Mercosul e suspensão de PIS/Cofins para fretes realizados no mercado interno (veja a lista completa no fim da matéria).
Na visão de Cerutti, algumas das medidas podem gerar resultados positivos, mas ele afirma que, além disso, é importante fomentar outras culturas. “É preciso incentivar as culturas de inverno, como o trigo, que também podem ajudar na composição das rações e atenuar os preços”, diz o engenheiro. O especialista ainda comenta que ficar dependente apenas das safras de milho, cultura vista como de “alto risco”, pode gerar momento de disparada no valor do insumo para fabricação de ração, em caso de quebras ou estiagens.
Para o deputado Jerônimo Goergen (PP), propositor da audiência, os alertas trazidos pela indústria de carnes mostram que o problema é muito mais complexo e não se restringe à área agrícola. “Quando falamos no risco de desabastecimento, de desindustrialização, da falta de proteína no prato dos brasileiros, de risco inflacionário, estamos trazendo elementos econômicos e sociais que exigem a atuação de várias estruturas de governo”, alertou. O parlamentar propôs a criação de um grupo interministerial que atue emergencialmente na tomada de decisões que possam reduzir a pressão sobre a cadeia produtiva da carne.
O setor da proteína animal é responsável por quatro milhões de empregos diretos e indiretos, e nos últimos 20 anos o segmento gerou US$ 145 bilhões em receitas cambiais, o equivalente a R$ 700 bilhões pela cotação atual.
Também participaram da audiência pública o presidente da Associação de Criadores de Suínos do Rio Grande do Sul (ACSURS), Valdecir Folador; o presidente da Associação Gaúcha de Avicultura (ASGAV), José Eduardo dos Santos; e o diretor de comercialização e abastecimento da Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Silvio Farnese.
Medidas solicitadas pelo setor produtivo para conter aumento dos preços das carnes e ovos
- Suspensão temporária da cobrança de PIS/Cofins para importação de milho e soja de países de fora do Mercosul, para empresas que não conseguem realizar Drawback.
- Suspensão de PIS/Cofins para fretes realizados no mercado interno.
- Suspensão do Imposto Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) sobre a importação desses insumos de países que não integram o Mercosul.
- Remover os entraves operacionais na importação de milho e soja geneticamente modificados, restringindo o seu uso à ração animal.
- Possibilitar à indústria o acesso a recursos do plano safra para armazenagem.
- Políticas de incentivo do plantio de milho e de cereais de inverno no Brasil.
Fonte: O Alto Uruguai
